June 2017

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A VELHICE FELINA

Muita gente sabe que eu amo o Mele (Pam), que o Mele é o meu amor e que esse amor dura quase 19 anos… Sabe também que ele já passou por alguns perrengues na vida, como ter caído do sétimo andar e ter tido uma hepatite. Mas ele passou por isso de boas, com sua ranzinice contumaz e os mimos da mami. E agora ele tá passando por outra grande provação na vida: a velhice felina. Aliás, ele e eu. Porque, olha, tenho orgulho dele ter essa idade que tem, de ainda ter uma vida ativa, na medida do possível, e por dar e receber amor, mas não é nada fácil ser velho. E não é nada fácil cuidar de velho. De verdade.

E todo mundo deve achar ai que lindo, quanto amor envolvido, quanta dedicação. E é. Principalmente dedicação. E é disso também que eu quero falar agora, principalmente porque passei o dia limpando xixi, dando banho nele com paninho úmido e tentando não me jogar junto com ele aqui do quinto andar. Brinks, gente, não me chamem de assassina, por favor. O que eu quero dizer e, repetindo o que já disse acima é que, de verdade, não é fácil.

O velhinho e a sua casinha

Tudo bem que eu nunca fui uma pessoa muito viajante e depois que casei fiquei mais caseira ainda. Mas até pra visitar minha família a duas horas daqui eu já fico com o coração na mão. Porque eu tenho quem cuide dele, mas e se não souber o que ele quer? E se ele tem algum piripaque bem quando eu não tô em casa? E se ele se machucar de alguma forma e ninguém ver? E se, e se, e se? Os gatos são sim independentes, mas muito amáveis, e na velhice eles precisam muito da gente. O Pam ficou mais manhoso, mais ranzinza, mais mimado e muito mais carente.

Velhice felina: vivendo (muito!) e aprendendo

O sinal mais evidente da velhice felina do Pam foi o emagrecimento. O apetite diminuiu. Ele gosta muito de comer, graças a Deus! Mas ele ficou muito mais seletivo e come em pequenas quantidades. Às vezes vomitava (por algum motivo, ele nunca mais vomitou). E eu dava remédio pro fígado e também um tipo Omeprazol. Mas os vômitos aconteciam. Exames, exames, exames. Fígado ruim, rim ruim. Nada tratável porque não tem doença. Mas a alimentação ajuda a desacelerar os sintomas. E dá-lhe comprar ração específica urinária e hepática. Caríssimas. E tem que ser sachê. Ele só come sachê atualmente. Primeiro dia: comeu horrores. Segundo: um pouco. Terceiro: não quer mais saber. Eu já tentei reintroduzir rações especiais várias vezes, mas ele simplesmente enjoa e não come nada. E não comer nada para um gato idoso (qualquer gato, na verdade, mas idoso é pior) é péssimo. Ele pode ter lipidose hepática e morrer em pouquíssimo tempo.

Depois, a visão começou a deteriorar. Ele começou a se bater nas coisas, ficar meio perdido. Mas não tem catarata. Também não tratável. Velhice felina. Depois, ele começou a andar esquisito. Artrite, artrose, etc. Os pelos ficam feios, sem brilho, embaraçam muito facilmente, as orelhas sempre sujíssimas. E a gente sempre limpando, lavando, ajudando, amando.

E tem o bafo! Meu Deus o bafo! Anos de acúmulo de tártaro (não, eu nunca fiz limpeza nele porque precisava anestesiar e eu nunca quis). E ele tem todos os dentes. Com 18 anos e 10 meses ele tem TODOS OS DENTES. Mas que bafo de onça! Se ele abre a boca, tem que sair de perto. Fedorentinho da mami!

E as unhas? Crescem grossas, ele não afia mais direito, não deixa cair, algumas vezes elas cresceram tanto que enfiaram na almofadinha das patas. O que mami tem que fazer? Cortar sempre e estar sempre de olho. Não preciso dizer que elas estão sempre sujismundas também, né?

E tem a demência. Sim, ele tem uma certa demência. Ele mia muito. E por nada. Nada mesmo. Ele se perde. Parece que às vezes ele não sabe quem ele é. E eu pego no colo e dou carinho e lembro que ele é meu Mele muito amado. E faço ele dormir no edredom no meio das minhas pernas. E ele dorme ronronando.

E tem também as pessoas. As pessoas são a parte mais chata. “Ai, que dó, como tá velhinho, né?” “Ai, ele não enxerga? Ai, que pecado” “Esse já tá indo né?”. Affffffffff!

Sustos sustos e mais sustos

Há algum tempo, ele teve um tumor do lado do olho. Fiquei doida, pensei fodeu, câncer, perdi o Mele. Levei na onco, não dava pra saber se era se não era. Fizemos uma cacetada de exames pra ver se poderíamos tirar o tumor. Não podia. Por quê? Rim ruim, fígado também e, principalmente, coração. Provavelmente ele não aguentaria uma anestesia geral (e, sim, tem que ser geral). Mas a onco me confortou e disse que mesmo que o tumor fosse maligno, ele super provavelmente não morreria disso. Ou seja, tava tudo tão podre que algo iria matá-lo antes. Acho que isso faz dois anos. E ele tá aí ainda. E sabe o que mais? O tumor dele diminuiu e secou. Eeeeeeeeeee.

E há alguns meses ele tá fazendo xixi com sangue. Pensa numa mãe apavorada! E fizemos exames e mais exames. Ele não tem infecção. Ele tem cristais na bexiga. Como resolve? Alimentação. Só um tipo de ração urinária que dissolve sei lá das quantas. Nada mais. Ele come? Um dia, dois, sim. No terceiro? Não mais. O que fazer? Nada.

E aí que ele faz xixi com sangue em vários lugares da casa agora – não é todo dia que o xixi dele tem sangue, mas é bem frequente. E não é por incontinência, é por… não sei, não sabemos. Mas o pé da minha cama, os tapetes dos banheiros e qualquer roupa, calçado, toalha, etc. que estiver no chão, é tudo caixa de areia do Mele (inclusive a própria caixa de areia). Tipo gato não castrado na fase de demarcar território. Só que o território já é bem dele há quase 19 anos.

Bom, e além do xixi na casa, tem o cheiro de xixi nele, porque ele não se limpa mais quase nada. E fica com cheiro impregnado. Eu tenho dado muitos banhos, mas pensa um velho ranzinza tomando banho. É desesperador. Então procuro passar paninhos úmidos sempre pra não fazer o véio sofrer. Mas ele odeia também. E berra. Porque ele é assim. Véio, todo ferrado, mas sempre dando ordem.

Por que eu fiz esse texto?

Gente, eu fiz esse texto pra todo mundo pensar bem que ter um gato (ou qualquer bichinho) é tipo ter um filho. Mesmo. E a velhice felina pode ser bastante estressante. Eu já vi muita gente doando ou abandonando os gatos na velhice porque “dá muito trabalho”. Obviamente tenho vontade de pegar pelo pescoço porque olha, se a pessoa não tem amor por um ser que viveu mais de uma dezena de anos ao seu lado, é bom que passe dessa pra melhor de uma vez, viu? Arrombados!

Mas eu tô reclamando? Tô. Um pouquinho só, tá, porque hoje eu tô bem injuriada porque o xixi do Pam impregnou embaixo da minha cama e tá foda meio apodrecendo e não quero falar disso, ahahaha. E enquanto eu faço esse texto, ele quis entrar no meu quarto (tinha jurado há 5 minutos que nunca mais) e ele tá dormindo ali em cima da minha cama e eu tô de oio no pimpoio pra que ele não vá sorrateiramente mijar no pé da cama (sim, ele é um véio safado).

A conclusão é que a velhice felina é cansativa, é foda, mas é uma delícia ter um bebê véio do seu lado, vivendo o máximo que pode porque ama o seu amor. E eu amo o amor dele.